quinta-feira, 15 de março de 2018

Matéria escura – Blake Crouch

Ano de publicação: 2016
Editora: Intrínseca
Nº de páginas: 352
           

        Matéria escura do escritor americano Blake Crouch foi lançado em 2016, e ficou entre os mais vendidos do ano na lista do New York Times, e vem fazendo sucesso com a crítica literária e com o público. Acredito que a ficção científica foi e continua sendo um gênero icônico que é capaz de atrair diferentes pessoas, em diferentes faixas etárias, e Crouch consegue inserir o tema de sua obra ao lado de alguns cânones mais antigos, e ao mesmo tempo inovar; o que torna seu livro tão interessante.
            Somos apresentados ao protagonista Jason Dessen, um homem aparentemente comum que tem uma vida maravilhosa, junto com a mulher que ama e seu filho. Em sua juventude Jason estudou e se dedicou durante muitos anos à física quântica, e assim teve uma ideia que poderia revolucionar todos os conceitos e postulados físicos colocados até a contemporaneidade. Quando saiu da universidade era considerado um prodígio, alguém que merecia patrocínio. Entretanto, toda essa trajetória de sucesso já previamente planejada, muda quando Jason se apaixona perdidamente pela artista em ascensão, Daniela. Quando ela anuncia que está grávida, ele decide largar sua carreira nos laboratórios para se dedicar a sua família, assim como sua esposa que não expõe mais.
            Depois de quinze anos do nascimento de Charlie, Jason se tornou professor de uma universidade mediana, e vê seus amigos sendo premiados com os estudos que realizaram durante os anos. Ele acredita na escolha que fez, pois ama sua família, entretanto, aquela dúvida sempre permanece, “Você é feliz com a vida que tem?”. É então que tudo na vida de Jason muda drasticamente, em uma noite quando voltava para casa de um encontro com um amigo, ele é sequestrado de maneira violenta e inexplicável. Sem entender absolutamente nada depois do sequestro, Jason acorda em um hospital sem conhecer as pessoas que estão lá. Aos poucos percebe que aquele mundo não se parece nem um pouco com o seu. Porque pessoas dizem conhecê-lo sem que ele se lembre disso. Porque ele foi o único que voltou da caixa e eles precisam interrogá-lo. Porque sua experiência é a única maneira de saber como controlar um experimento incontrolável.
            Logo Jason se dá conta porque aquela realidade não parece a sua, porque não é. Naquele lugar o qual ele foi parar, Jason havia feito outra escolha, - abandonou Daniela e Charlie para se dedicar inteiramente a ciência-, além disso se tornou o gênio que demonstrava que seria, criou um lugar – a caixa – que aliado a uma droga, que foi inventada por um de seus amigos mais próximos, é capaz de desviar a atenção do córtex cerebral para que a realidade não seja observada, e então seja possível olharmos a matéria escura, as realidades entre a realidade. Ou seja, o multiverso. Jason que se tornou um físico memorável, não apenas inventou uma maneira de ter acesso a vidas alternativas da sua própria, mas resolveu trocar de lugar com o Jason que escolheu sua família, entre infinitos Jasons que fizeram escolhas completamente diferentes das deles, ou vivem em lugares nos quais acontecimentos históricos se decorreram de formas diferentes, ou seja, existem inúmeras possibilidades para cada escolha que Jason fez durante sua vida.
            A partir de então, Jason busca um jeito de sair daquela vida que não é sua, sobrevivendo daqueles que exigem respostas do Jason que não é ele, e ainda mais terrível, encontrar a sua própria realidade entre o infinito. Como procurar um grão de areia em uma praia. Mesmo parecendo uma missão suicida, o que o motiva é a consciência de que escolher sua família foi definitivamente a escolha certa. Se agarrando nessa verdade, ele perpassa mundos, nos quais ele ficou doente, morreu, ou se separou de Daniela ou simplesmente nunca a conheceu. Toda essa busca para retomar sua vida, além de confrontar o homem responsável por tudo isso, ele mesmo.
            Acredito que o melhor do livro, para além da narrativa muito eletrizante, é a reflexão que traz sobre como cada escolha que fazemos em nossa vida, todos os dias por menor que seja, é única, e vai nos levar a um caminho também único e imutável. Ou seja, quais seriam as consequências se escolhêssemos diferente? Como seria se houvesse uma maneira de acessar outras versões de si? Como remediar os arrependimentos? É realmente uma reflexão espetacular, extremamente bem explorada pelo autor neste livro. O quão assustador é ser arrancado da sua vida, e ser arremessado em um lugar no qual você já não se reconhece, ou as pessoas que você ama tomaram caminhos diferentes. E o quão assustador é ter você mesmo como seu pior inimigo, que age como você, pensa como você, faz como você, ou pior é capaz de ir mais longe.

            Matéria escura é realmente muito interessante, e a leitura é muito dinâmica, mesmo nas explicações mais puramente físicas, você não precisa ser um expert. O foco não está na descoberta em si, mas nas possibilidades que ela abre para o acesso ao multiverso e quais podem ser as consequências dessa escolha. Crouch apresenta um livro capaz de questionar o imutável. E você o que faria se pudesse acessar o multiverso e suas vidas alternativas?

                                                                                                    Sorcha

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Deuses americanos - Neil Gaiman

Deuses americanos - Neil Gaiman






"Deuses são reais, se acredita neles"
            
      Deuses americanos, obra do famoso e consagrado autor inglês Neil Gaiman, foi lançada em 2001, mas voltou à lista dos mais vendidos recentemente com o lançamento da editora Intrínseca de uma edição cheia de extras. Muito interessante aliás, por trazer a versão completa do livro selecionada por Gaiman, ou seja, sem os recortes feitos nos primeiros lançamentos. Além disso, a nova edição traz uma introdução do autor depois de anos do livro finalizado, comentários dos tradutores, e até mesmo uma parte que Gaiman decidiu deixar de fora da obra finalizada.
            O livro é um dos mais premiados e também mais ambiciosos de Gaiman e chama atenção exatamente por fugir completamente do que já conhecemos de mais tradicional sobre a literatura que abrange a mitologia de uma maneira geral. Acredito que esse seja um dos pontos altos do livro já de primeira: conseguir atrair o público infanto-juvenil, já acostumado com a mitologia dado ao imenso sucesso das muitas coleções de outros autores – principalmente Rick Riordan - que perpassam diferentes deuses, povos e até mesmo momentos históricos. Entretanto, de muitas maneiras Deuses americanos tem pretensão mais adulta, ainda mais considerando a construção da narrativa, que está longe de ser simples, e pode deixar o leitor um pouco desesperado.
            Confesso que ter passado por outras obras de Gaiman - devo enfatizar “O oceano no fim do caminho”, ~que continua sendo um dos meus favoritos~ -  tornou a compreensão de Deuses Americanos um pouco mais fácil, porque já é possível identificar traços que são próprios de Gaiman e da sua maneira de escrever. Sua autenticidade vem muito do fato de em algum momento na narrativa, você se perguntar por que esta acontecendo tal situação, e absolutamente nada fazer sentido, para que o autor brilhantemente faça conexões e ganchos, no final, final mesmo, nas últimas páginas. Ou seja, não espere uma leitura rápida e despretensiosa.
            A história se inicia quando somos apresentados ao protagonista, Shadow, um ex- treinador de academia que acabou na cadeia depois de um roubo que deu errado. Quando o encontramos, ele -muito confuso, e esperançoso de voltar para sua casa e sua esposa, - foi liberado de um tempo de sua pena, infelizmente porque sua mulher morreu. Completamente desolado, e até mesmo apático ao fato, ele encontra uma figura estranha, que se apresenta como Wednesday, e que lhe oferece um emprego. A proposta incluiu fazer o que ele quiser e viajar pelos Estados Unidos para resolver seus problemas, carregar suas encomendas, entre outras atividades estranhas, das quais ele não quer muitas perguntas. Com o decorrer da história, Shadow aceita a oferta, por mais estranho que aquele homem fosse. Logo descobrimos que na verdade ele é uma divindade personificada que existe pela fé das pessoas. Na obra, se alguém acredita em um deus, ele existe e vive como homem. Por isso, existem tantos deuses nos EUA, e Gaiman é extremamente coerente em apresentar uma enorme variedade de divindades: desde as mais clássicas que vieram com a imigração europeia, até as africanas e indígenas, e também por árabes e asiáticos. É bastante interessante que o autor busca demonstrar as muitas hierarquias sociais em relação a entrada de diversos povos nos EUA, estas que foram transportadas aos próprios deuses e sua dinâmica.  Quando Shadow começa a acompanhar Wednesday, é possível perceber que ele foi jogado em um contexto de guerra, porque os deuses precisam de adoração para viver; e só viverá enquanto seu último fiel respirar. E os deuses velhos, aqueles que estão no país há longos séculos perderam espaço e seus fiéis quase que por completo, para os verdadeiros deuses americanos modernos: o dinheiro, a internet, as mídias televisivas e o consumismo.
            Com medo de perecer, Wednesday incube Shadow de percorrer os Estados Unidos em busca de deuses que estejam na mesma situação e queiram se juntar a sua causa, e assim reviver a glória antiga depois de derrotar as modernidades tecnológicas. Ou seja, a história é centrada em um grande conflito, nos deuses e em seus poderes! Se você pensou isso, lembre-se que é uma obra de Gaiman, e os deuses são personagens secundários, a história é sobre Shadow. E os deuses não assumem em nenhum momento aquele jargão clássico de heroísmo, tanto os velhos quanto os modernos. Eles tentam sobreviver como podem, ou seja, são gananciosos, perversos, egoístas, como qualquer personagem bem construído que mostra suas diversas facetas, algo que funciona extremamente bem com a obra, que foge do óbvio sem maniqueísmos evidentes.
            Em alguns momentos, a narrativa parece bastante arrastada, mas devo dizer, isso pode ser consequência da edição sem cortes. Entretanto, é aparente que algumas coisas parecem desconectadas do contexto, como eu disse, não tenha medo de estar perdido na narrativa, porque é parte da experiência. O final é muito bem construído, Gaiman consegue amarrar as muitas pontas soltas que aparentemente estavam distantes do eixo central.


            Deuses americanos é realmente singular, o estilo literário de Gaiman é sempre muito encantador e maravilhoso, e esta obra consegue reunir suas melhores características. Apresentando diferentes mitologias, algumas com certeza você nunca ouviu falar sobre, e ainda demonstrando sua crítica sutil à sociedade moderna, ele conduz o leitor com Shadow a uma experiência inovadora, que em minha opinião faz jus ao seu trabalho como escritor, seus prêmios e o sucesso da obra que até rendeu uma série produzida pela HBO.

                                                                                                              Sorcha

terça-feira, 25 de julho de 2017

O aprendiz de Morte - Terry Pratchett

A morte em Discworld é um esqueleto encapuzado, com chamas azuis no lugar dos olhos, carrega uma respeitável foice e se relaciona bem com gatos. Além disso, ele cavalga um cavalo branco chamado Binky - ou Pituco na tradução - (nada de montarias de esqueletos, afinal, é pouco prático ter de recuperar seus ossos por aí e remontar tudo) e só começa a ficar bêbado após do 47º drink. Ou seja, uma figura imponente cuja voz é projetada imperiosamente pelo livro. Acredite, se a Morte falar você ficará sabendo.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

A livraria mágica de Paris - Nina George

A livraria mágica de Paris – Nina George
            Lançado em março desse ano o livro “A livraria mágica de Paris” é sem dúvida uma das minhas melhores leituras do ano. Da autora alemã Nina George, jornalista, escritora e professora, A livraria mágica de Paris foi seu primeiro best-seller que foi traduzido para inúmeras línguas, inclusive o português. Tomei conhecimento do livro através de uma plataforma, que a partir de várias perguntas diferentes, analisando características suas, e do seu dia, te indica um livro. Disponível em http://alivrariamagicadeparis.com.br/.  É realmente uma ideia sensacional transformar a essência do livro em perguntas simples que definem o livro que precisa ler, e não o que quer no momento, assim como o dom de Jean Perdu.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Lady Susan - Jane Austen

LADY SUSAN - JANE AUSTEN

Título: Lady Susan

Autor: Jane Austen

Ano de publicação:1871

Editora: Landmark 

Nº de páginas: 152


Querida Jane,
Há muito que desejava lhe falar, porém nenhum motivo era bom o suficiente para que me pusesse a lhe escrever. Até que tive conhecimento de uma obra sua que sequer sabia da existência, é este livro que me motivou a escrever está carta.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Um crime na Holanda - Georges Simenon



Título: Um crime na Holanda

Autor: Georges Simenon

Ano da primeira publicação: 1931

Editora: L&PM

No de páginas: 160

Um crime na Holanda é um dos primeiros livros de Georges Simenon que possui como protagonista o detetive francês Jules Maigret. Nesta história o inspetor viaja à Delfzijl, uma pequena cidade portuária, com direito a canais e casas de tijolo à vista, para desvendar o assassinato de Conrad Popinga, professor na Escola Naval, portanto, uma figura importante e proeminente na região. A presença de um membro da polícia francesa na Holanda é justificada pela suspeita de que Jean Duclos, um professor universitário francês, tivesse cometido o crime.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

O orfanato da Srta. Peregrine para crianças peculiares - Ransom Riggs


Título: O orfanato da Srta. Peregrine para crianças peculiares
Autor: Ransom Riggs
Ano de publicação: 2012
Editora: Leya
Nº de páginas: 336

     O livro intitulado "O orfanato da Srta. Peregrine para crianças peculiares" do americano Ransom Riggs publicado em 2012, alcançou grande sucesso nesse ano, o que lhe rendeu muitos elogios e boas críticas, e também levou à adaptação para o cinema. O filme é dirigido por Tim Burton, que coloca na obra seus toques aliados aos pontos positivos da narrativa de Riggs. Eu assisti ao filme antes de ler o livro e devo dizer que algumas coisas foram alteradas, alguns personagens e suas características, assim como alguns acontecimentos. De uma maneira geral o filme aproveita vários traços do livro, mas mesmo assim tem suas falhas, uma Srta. Peregrine caricata, por exemplo. Carregando suas diferenças com o livro, o filme no entanto, me chamou muito a atenção e por consequência me interessou pelos livros, pois esse é o primeiro de uma trilogia.